O Poder do Administrador: Henri Fayol – O engenheiro que salvou uma mineradora e criou a teoria da administração
BlogHenri Fayol assumiu em 1888 uma mineradora à beira da liquidação e criou as 5 funções e os 14 princípios da administração. Veja o caso e o que ele ensina.
Henri Fayol (1841–1925) foi o engenheiro de minas francês que assumiu, em 1888, a direção de uma mineradora e siderúrgica à beira da liquidação, a Commentry-Fourchambault, e a entregou trinta anos depois como um dos maiores grupos industriais da Europa. Dessa experiência saiu o livro Administration industrielle et générale (1916), que definiu as cinco funções do administrador — prever, organizar, comandar, coordenar e controlar — e os 14 princípios de gestão ensinados até hoje nos cursos de Administração.
O legado mais valioso de Fayol é uma ideia que soava estranha em 1916: administrar é uma competência separada da técnica e pode ser ensinada em sala de aula. A lista de princípios que cai em prova é consequência dela.
Quem foi Henri Fayol?
Jules Henri Fayol nasceu em 29 de julho de 1841 em Constantinopla (atual Istambul), onde o pai, engenheiro militar, supervisionava a construção da ponte de Gálata. A família voltou à França em 1847. Fayol formou-se na École des Mines de Saint-Étienne em 1860 e, no mesmo ano, aos 19 anos, foi contratado como engenheiro da mina de carvão de Commentry, no centro da França. Aos 25 já era o gerente da mina.
Ele trabalhou na mesma companhia por 58 anos, até se aposentar em 1918, e morreu em Paris em 19 de novembro de 1925. Antes de escrever sobre gestão, publicou estudos técnicos sobre a combustão espontânea do carvão (1879) e a formação das camadas carboníferas (1887). O homem que defendeu o peso da administração sobre a técnica era, ele próprio, um técnico respeitado.
Como Fayol salvou a Commentry-Fourchambault?
Fayol virou diretor-geral em 1888, quando a companhia não pagava dividendos desde 1885 e o conselho já discutia abandonar a siderurgia e as minas. Em vez de conduzir a liquidação, ele apresentou um plano de recuperação, que o conselho aprovou. As decisões centrais foram três:
- Fechar o que dava prejuízo: a fundição de Fourchambault foi desativada e a produção, concentrada em Montluçon para ganhar escala.
- Repor a matéria-prima: as jazidas de Commentry estavam se esgotando, e a empresa comprou as de Brassac, Decazeville (incorporada em 1892) e, mais tarde, Joudreville.
- Reorganizar o trabalho: os mineiros passaram a atuar em equipes, com nova divisão de tarefas.
Quando Fayol se aposentou, em 1918, a Commentry-Fourchambault et Decazeville era financeiramente sólida e figurava entre os maiores conglomerados industriais europeus.
Quais são as cinco funções do administrador segundo Fayol?
As cinco funções são prever, organizar, comandar, coordenar e controlar, sequência que os cursos brasileiros abreviam como POCCC.
- Prever: traçar o plano de ação e estimar os recursos necessários.
- Organizar: montar a estrutura de pessoas e materiais que executa o plano.
- Comandar: dirigir o pessoal.
- Coordenar: harmonizar os esforços das diferentes áreas.
- Controlar: verificar se o resultado segue o plano e corrigir os desvios.
Fayol também dividiu as atividades de qualquer empresa em seis grupos: técnicas, comerciais, financeiras, de segurança, contábeis e administrativas. Em 1916, as cinco primeiras tinham escolas e manuais. A sexta não tinha nenhum.
Quanto do trabalho de um diretor é administração?
Metade, na conta de Fayol. O livro traz uma tabela com o peso de cada capacidade conforme o cargo em uma grande empresa: para o operário, 85% de capacidade técnica e 5% de administrativa; para o diretor-geral, 10% de técnica e 50% de administrativa. Tradução prática: o engenheiro promovido a diretor que continua gastando a maior parte do dia com problemas técnicos está fazendo o trabalho do cargo anterior.
Quais são os 14 princípios de Fayol?
Os 14 princípios são regras de conduta que Fayol extraiu da própria prática como diretor:
- Divisão do trabalho
- Autoridade e responsabilidade
- Disciplina
- Unidade de comando (cada empregado recebe ordens de um único chefe)
- Unidade de direção (um plano e um responsável para cada objetivo)
- Subordinação do interesse individual ao interesse geral
- Remuneração justa do pessoal
- Centralização
- Cadeia escalar (a linha de autoridade do topo à base)
- Ordem
- Equidade
- Estabilidade do pessoal
- Iniciativa
- Espírito de equipe (esprit de corps)
O próprio autor avisou que a lista não era um código rígido: em matéria administrativa, escreveu, tudo é questão de medida. O exemplo está no nono princípio. Para evitar que uma mensagem subisse e descesse toda a hierarquia, Fayol admitia a “passarela”, um atalho que autoriza dois chefes do mesmo nível a resolver o assunto diretamente, desde que seus superiores fiquem informados.
Qual a diferença entre Fayol e Taylor?
Taylor estudou a empresa de baixo para cima e Fayol, de cima para baixo. O americano Frederick Winslow Taylor, autor de Princípios de Administração Científica (1911), cronometrava os movimentos do operário para aumentar a produtividade de cada tarefa. Fayol partiu da cadeira de diretor e tratou da estrutura e do comando da organização inteira.
Taylor ficou mais conhecido no mundo de língua inglesa por um motivo editorial. A primeira tradução inglesa de Fayol, de J. A. Coubrough, saiu em 1930 e circulou pouco. A edição que chegou às escolas americanas foi a de 1949, publicada pela Pitman, 33 anos depois do original francês, com o título General and Industrial Management.
A recuperação da empresa foi mérito só do método?
Não. O historiador Daniel Wren analisou o caso no artigo “Henri Fayol as strategist: a nineteenth century corporate turnaround”, publicado em 2001 na revista Management Decision. Fayol atribuía a virada à aplicação de sua doutrina administrativa. Wren reconhece que houve uma estratégia deliberada, mas aponta outros fatores em jogo, a começar pelas decisões de fechar unidades e comprar jazidas.
A ressalva reforça a tese em vez de enfraquecê-la. Fechar Fourchambault, comprar Decazeville e concentrar a produção em Montluçon são exatamente o que Fayol chamava de prever e organizar. Nenhuma dessas decisões dependia de saber extrair carvão melhor do que os concorrentes.
O que o caso Fayol ensina a quem quer ser administrador?
Ensina que competência técnica leva alguém até a gerência e que, dali em diante, a carreira depende de outra habilidade. Fayol gerenciou uma mina aos 25 anos porque era bom engenheiro, e salvou a empresa duas décadas depois porque sabia decidir o que fechar, o que comprar e como distribuir autoridade.
Em 1916 ele reclamava que as escolas de engenharia francesas não ofereciam aulas de administração. Um século depois, Administração é o segundo curso de graduação com mais matrículas no Brasil, com 653.126 alunos em 2024, segundo o Censo da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O caminho de formação, as áreas de atuação e os salários estão na página da carreira de Administrador do Guia de Carreiras.