O Poder do Administrador: Peter Drucker – O estudo sobre a General Motors que inventou a gestão moderna
BlogPeter Drucker passou 18 meses dentro da General Motors e publicou, em 1946, o livro que fundou a gestão moderna. Entenda o estudo e por que a GM o rejeitou.
Peter Drucker (1909–2005) passou 18 meses dentro da General Motors, a partir de 1943, e transformou o que viu no livro Concept of the Corporation (1946), a primeira análise de uma grande empresa como organização de pessoas, e não como conjunto de máquinas e balanços. A obra elogiava a GM e sugeria mudanças. A montadora ignorou as sugestões, e os concorrentes e as escolas de negócios adotaram o livro como manual.
A lição que interessa a quem estuda Administração está nesse desencontro: o estudo que deu origem à gestão moderna foi rejeitado justamente pela empresa que o encomendou.
Quem foi Peter Drucker?
Peter Ferdinand Drucker nasceu em Viena em 19 de novembro de 1909, filho de um alto funcionário do Império Austro-Húngaro, e emigrou para os Estados Unidos em 1937. Trabalhou como jornalista, escrevendo para a Harper’s e o Washington Post, e no início dos anos 1940 lecionava ciência política e filosofia no Bennington College, em Vermont.
Ele não era engenheiro nem contador, e nunca havia dirigido uma fábrica. Tinha publicado dois livros de análise política, The End of Economic Man (1939) e The Future of Industrial Man (1942). Foi o segundo, que descrevia a grande empresa como a instituição central da sociedade industrial, que chamou a atenção da diretoria da GM. Drucker morreu em 11 de novembro de 2005, na Califórnia, com 39 livros publicados.
Por que a General Motors chamou Drucker?
O convite partiu de Donaldson Brown, vice-presidente do conselho e arquiteto dos controles financeiros da GM, que queria registrar como a companhia funcionava antes que a geração de fundadores se aposentasse. Alfred Sloan dirigia a empresa desde 1923 e havia adiado a saída para conduzi-la durante a Segunda Guerra.
Drucker impôs uma condição. Disse a Brown que, como consultor, seria visto pelos gerentes como espião da diretoria, e que só aceitaria se pudesse escrever um livro, com a GM corrigindo apenas erros de fato. Brown recusou. Seis semanas depois, a empresa voltou atrás.
Durante 18 meses, Drucker recebeu salário integral da GM, assistiu às reuniões da cúpula ao lado de Sloan e visitou as divisões da companhia a leste das Montanhas Rochosas, entrevistando de diretores a operários.
O que Drucker descobriu dentro da GM?
Descobriu que a vantagem da GM estava na forma de dividir o poder, e não nas linhas de montagem. Ele chamou o modelo de “descentralização federal”, por analogia com a relação entre o governo dos Estados Unidos e os estados:
- Divisões autônomas: Chevrolet, Pontiac, Oldsmobile, Buick e Cadillac decidiam produto, produção e vendas como empresas separadas.
- Controle central pelo resultado: a sede definia a política geral, alocava o capital e cobrava cada divisão pelo retorno sobre o investimento.
- Gerentes medidos por números, e não por obediência: o chefe de divisão tinha liberdade para decidir e respondia pelo que entregava.
Até ali, livros sobre empresas tratavam de finanças, engenharia ou vendas. Drucker perguntou outra coisa: como milhares de pessoas tomam decisões coordenadas sem que tudo passe pela mesa do presidente. O biógrafo Jack Beatty resumiu o resultado dizendo que Concept of the Corporation é um livro sobre negócios do mesmo modo que Moby Dick é um livro sobre caça à baleia.
Por que a GM rejeitou o livro?
Porque Drucker tratou como provisório o que a diretoria considerava definitivo. O livro, publicado em 1946 pela editora John Day, com 329 páginas, recomendava três revisões:
- Reexaminar periodicamente as políticas da empresa, inclusive as que estavam dando certo.
- Tratar o operário como recurso a desenvolver, e não como custo a cortar, dando às equipes de fábrica responsabilidade sobre o próprio trabalho.
- Reconhecer que uma empresa daquele porte tinha obrigações com a sociedade, além do lucro.
A cúpula leu as três como crítica. Em 1983, Drucker escreveu que o livro teve impacto imediato nas empresas e nos órgãos públicos americanos “e nenhum na General Motors”.
Sloan escreveu mesmo um livro para rebater Drucker?
Essa é a versão de Drucker, e ela pede cautela. No prefácio que escreveu para a reedição de 1990 de My Years with General Motors, as memórias que Sloan publicou em 1964, Drucker afirma que o livro foi concebido como resposta ao seu. O economista britânico John Kay conferiu: o texto de Sloan não menciona Concept of the Corporation nem uma única vez. A GM preferiu o silêncio ao debate.
Como o estudo mudou a Administração?
O livro circulou onde a GM não mandava. Segundo o próprio Drucker, empresas americanas que se reorganizaram no pós-guerra, com a Ford de Henry Ford II entre as primeiras, usaram a descrição da estrutura divisional como referência, e executivos japoneses adotaram as ideias de Drucker sobre o papel do trabalhador nas décadas seguintes.
Para Drucker, o estudo foi o ponto de partida de uma obra. Oito anos depois ele publicou The Practice of Management (1954), que apresentou a administração por objetivos: metas negociadas entre chefe e subordinado, com cobrança pelo resultado. Quem já passou por uma avaliação de desempenho com metas ou trabalhou com OKRs conheceu uma descendente direta dessa ideia.
Há um precedente que costuma ficar de fora dessa história. O francês Henri Fayol havia descrito as funções do administrador em 1916, mas sua obra só ganhou tradução inglesa de grande circulação em 1949. Quando Drucker entrou na GM, a teoria da administração já existia, só que em francês. O que faltava era alguém observar, de dentro, uma empresa de centenas de milhares de empregados.
O que o caso Drucker ensina a quem quer ser administrador?
Ensina que a pergunta mais útil de um administrador é a que a empresa bem-sucedida não quer ouvir: o que deu certo até aqui continuará dando? A GM de 1946 era a maior fabricante de automóveis do mundo e tinha motivos para não mudar nada. Sessenta e três anos depois da publicação do livro, em 1º de junho de 2009, a companhia entrou com pedido de recuperação judicial nos Estados Unidos, sob o Chapter 11.
O caso ensina também que formação generalista é ativo, e não fraqueza. Drucker enxergou a estrutura da GM porque vinha da ciência política e sabia comparar uma empresa a um governo. A graduação em Administração segue a mesma lógica ao combinar finanças, pessoas, marketing e operações em um só currículo. As áreas de atuação e os salários da profissão estão na página de Administrador do Guia de Carreiras.