O Poder do Analista Comercial: John Patterson e a NCR – A invenção do treinamento de vendas ...
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O Poder do Analista Comercial: John Patterson e a NCR – A invenção do treinamento de vendas

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John Patterson criou na NCR o roteiro de vendas de 1887 e a escola de vendedores de 1893. Veja como o método levou a empresa a 95% do mercado dos EUA.

John Henry Patterson (1844–1922), fundador da National Cash Register (NCR), criou o primeiro programa formal de treinamento de vendedores de que se tem registro: um roteiro de vendas decorado, adotado em 1887, e uma escola de vendas dentro da fábrica, aberta em 1893. Com esse método, a NCR chegou a 1911 com um milhão de caixas registradoras vendidas e 95% do mercado dos Estados Unidos.

O caso derruba a ideia de que vendedor bom nasce pronto. Patterson tratou a venda como um processo que se escreve, se ensina e se cobra, e foi isso que transformou um produto que ninguém queria em monopólio.

Quem foi John Patterson?

John Henry Patterson nasceu em Dayton, Ohio, em 13 de dezembro de 1844, formou-se no Dartmouth College em 1867 e trabalhou no comércio de carvão. Foi como cliente que conheceu a caixa registradora, inventada em 1879 por James Ritty, também de Dayton. Segundo o histórico reunido pela NCR Retirement Fellowship, Patterson comprou duas máquinas sem vê-las para sua loja de carvão e, em seis meses, reduziu a dívida do negócio de 16 mil para 3 mil dólares e registrou 5 mil dólares de lucro.

Convencido pelo próprio caixa, ele investiu na fabricante, a National Manufacturing Company, em 1882. Em 1884, comprou a empresa com o irmão Frank por 6.500 dólares e a rebatizou de National Cash Register Company. Patterson morreu em 7 de maio de 1922.

Por que a caixa registradora era difícil de vender?

Porque custava caro e resolvia um problema que o comprador não admitia ter. A máquina saía por cerca de 50 dólares e havia pouca demanda. Sua função era registrar cada venda e impedir que o dinheiro sumisse da gaveta, o que significava dizer ao dono da loja que seus balconistas podiam estar desviando dinheiro, e dizer isso na frente deles.

Um produto assim não se vendia sozinho. Dependia de um vendedor capaz de demonstrar o prejuízo invisível e conduzir o lojista até a compra.

O que era o NCR Primer?

Era um roteiro de vendas de cerca de 450 palavras, introduzido em 1887, que todo vendedor da NCR tinha de decorar. O texto foi escrito por Joseph H. Crane, cunhado de Patterson, a partir das apresentações de venda bem-sucedidas que ele próprio fazia.

O historiador Walter Friedman, da Harvard Business School, analisou o documento em artigo publicado em 1999 na Business History Review. Segundo ele, o Primer dizia ao vendedor o que falar e o que fazer com as mãos: asteriscos no texto marcavam o momento de apontar para uma parte da máquina. A venda era dividida em quatro etapas:

  1. Abordagem: a aproximação do lojista.
  2. Proposta: a explicação do que a máquina faria pelo negócio.
  3. Demonstração: o uso da registradora diante do cliente.
  4. Fechamento: o pedido de compra.

Patterson aplicava testes de surpresa e demitia quem se recusava a aprender o texto. Pouco depois veio um segundo material, o Livro de Argumentos, com respostas para as objeções mais comuns. Em janeiro de 1894 os dois foram fundidos no Manual de Vendas, que chegou a quase 200 páginas em 1904 e foi enxugado para 56 em 1910.

Patterson inventou o manual de vendas?

Não foi o primeiro a pôr argumentos de venda no papel. Friedman registra que Henry B. Hyde, da seguradora Equitable, publicou em 1859 o folheto Hints for Agents, com argumentos para seus corretores. A novidade da NCR foi o conjunto: roteiro obrigatório, escola, convenção e meta, funcionando como um sistema.

Como funcionava a escola de vendas da NCR?

A escola abriu em 1893, em Dayton, e é citada como a primeira escola formal de treinamento de vendas conhecida. Ali os vendedores, que trabalhavam por comissão, eram treinados no Primer.

O treinamento era reforçado por outros dois mecanismos:

  • Convenção de vendas: realizada desde 1887, reunia os agentes para demonstrações diante dos colegas.
  • Clube da meta: a convenção passou a se chamar Century Point Club e a receber os vendedores que atingiam sua cota.

Roteiro, treinamento, cota e premiação: quem trabalha hoje em uma equipe comercial reconhece os quatro elementos.

Qual foi o resultado para a NCR?

Em 1911, a NCR tinha vendido um milhão de máquinas, empregava quase 6 mil pessoas e controlava 95% do mercado americano de caixas registradoras. Em 27 anos, a empresa comprada por 6.500 dólares havia se tornado dona do setor.

O método formou também uma geração de executivos. Entre 1910 e 1930, cerca de um sexto dos executivos de empresas dos Estados Unidos havia passado pela NCR. O mais conhecido é Thomas J. Watson, contratado como aprendiz de vendas em novembro de 1896, promovido a gerente da filial de Rochester e depois levado para a sede. Demitido por Patterson, Watson assumiu em 1º de maio de 1914 a gerência-geral da empresa que, em 1924, ele rebatizaria de International Business Machines, a IBM.

O método de Patterson tinha um lado sombrio?

Tinha, e a Justiça americana o registrou. Em 1912, Patterson, Watson e outros 26 executivos e gerentes da NCR foram condenados por práticas anticompetitivas de vendas, com base na Lei Sherman Antitruste, a um ano de prisão. As condenações foram anuladas em recurso, em 1915.

Os 95% de mercado, portanto, não vieram só do treinamento. Entre 1893 e 1906 a NCR comprou vários concorrentes menores, e a agressividade contra os que restaram chegou ao tribunal. O caso separa duas coisas que a carreira comercial exige distinguir: disciplina de processo, que é a herança útil de Patterson, e pressão sobre o concorrente fora da lei, que quase o levou à cadeia.

O que o caso Patterson ensina a quem quer trabalhar com vendas?

Ensina que venda é processo antes de ser talento. As apresentações de Crane davam resultado, e Patterson percebeu que o valor estava em transformar o que Crane fazia em um texto de 450 palavras que qualquer contratado pudesse repetir. As quatro etapas do Primer de 1887 continuam reconhecíveis em qualquer funil de vendas.

Para o analista comercial, que trabalha com metas, carteira de clientes e indicadores, a lição é prática: resultado previsível vem de método documentado, medido e treinado. Formação, rotina e remuneração da área estão na página de Analista Comercial (Vendas) do Guia de Carreiras.


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