O Poder do Analista de Investimentos: Michael Burry – O investidor que leu os contratos do subprime ...
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O Poder do Analista de Investimentos: Michael Burry – O investidor que leu os contratos do subprime

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Michael Burry previu o colapso das hipotecas subprime e lucrou US$ 100 milhões na crise de 2008. Veja como ele analisou o mercado e o que ensina.

Michael Burry é o médico americano que virou gestor de fundos e, entre 2003 e 2005, analisou as práticas de concessão de crédito imobiliário nos Estados Unidos, concluiu que o mercado entraria em colapso por volta de 2007 e apostou contra os títulos lastreados em hipotecas de alto risco, o chamado subprime. Quando a crise veio, ele lucrou 100 milhões de dólares, e os investidores de seu fundo, mais de 700 milhões. A história foi contada no livro The Big Short (2010) e no filme de 2015.

Para quem pensa na carreira de analista de investimentos, o caso mostra o que a análise fundamentalista levada a sério consegue enxergar, e também quanto custa estar certo antes da hora.

Quem é Michael Burry?

Michael Burry nasceu em San Jose, na Califórnia, em 19 de junho de 1971. Formou-se em economia e no curso preparatório de medicina na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e obteve o título de médico na Vanderbilt University em 1997. Iniciou a residência em neurologia em Stanford e não a concluiu.

Enquanto estudava medicina, publicava análises de investimento no fórum Silicon Investor, a partir de 1996. Em 21 de fevereiro de 2000, relatou ter montado posição vendida em ações da Amazon, que caíram cerca de 80% no ano seguinte, com o estouro da bolha da internet. Em novembro de 2000, fundou a gestora Scion Capital com uma herança familiar e empréstimos.

Burry perdeu o olho esquerdo aos dois anos, por causa de um câncer, e usa prótese desde criança. Ele acredita ter síndrome de Asperger.

O que Michael Burry percebeu no mercado imobiliário?

Percebeu que o crédito estava sendo concedido a quem não teria como pagar. Entre 2003 e 2005, ele analisou as práticas de concessão de hipotecas e previu que a bolha imobiliária entraria em colapso até 2007. A partir de 2005, concentrou o fundo no mercado de subprime.

O método não dependia de informação privilegiada. Em artigo publicado no New York Times em 3 de abril de 2010, o próprio Burry sustentou que a crise era previsível para quem analisasse o mercado com cuidado.

Como ele apostou contra o mercado?

Comprando credit default swaps (CDS) sobre títulos lastreados em hipotecas subprime. Burry adquiriu esses contratos do banco Goldman Sachs e de outras instituições.

O que é um credit default swap?

É um contrato que funciona como um seguro contra calote. O comprador paga um prêmio periódico ao vendedor. Se o título de referência deixa de ser pago, o vendedor indeniza o comprador. A posição tem duas características:

  • Custo certo: enquanto o calote não acontece, o comprador desembolsa os prêmios e registra perda.
  • Ganho condicionado: o lucro só aparece se o evento previsto ocorrer dentro do prazo do contrato.

Burry estava, na prática, pagando seguro contra o incêndio de um prédio que todos consideravam à prova de fogo.

Por que os investidores se revoltaram contra ele?

Porque, antes da crise, o fundo só mostrava a conta dos prêmios. Enquanto o mercado imobiliário continuava subindo, a Scion pagava pelos contratos sem receber nada em troca, e investidores céticos passaram a exigir o resgate de seu dinheiro.

Esse é o trecho do caso mais útil para a profissão. A tese de Burry se confirmou, e ainda assim ele enfrentou a revolta dos próprios clientes antes disso. Uma análise correta com o prazo errado, ou com clientes que não aguentam esperar, produz o mesmo resultado de uma análise errada.

Quanto Michael Burry ganhou com a crise?

O lucro pessoal foi de 100 milhões de dólares, e os demais investidores da Scion ganharam mais de 700 milhões. Em 2008, depois do resultado, Burry encerrou a Scion Capital.

A trajetória posterior:

  1. 2010: o jornalista Michael Lewis publica The Big Short, pela editora W. W. Norton, em 15 de março.
  2. 2013: Burry reabre a gestora como Scion Asset Management, com foco em água, terras agrícolas e ouro.
  3. 2015: estreia o filme A Grande Aposta, em que Burry é interpretado por Christian Bale.
  4. 2021: ele investe na GameStop e vende antes da disparada das “ações-meme”.
  5. Novembro de 2025: fecha a Scion Asset Management e lança, no dia 23, a newsletter Cassandra Unchained, dedicada a alertas sobre uma bolha em inteligência artificial.

Burry mantém ativa sua licença médica na Califórnia, embora não exerça a profissão.

Michael Burry acerta sempre?

Não há como afirmar isso, e a pergunta deve ser feita. O histórico dele registra dois acertos de grande porte, a Amazon em 2000 e o subprime em 2007, e uma saída prematura, a da GameStop em 2021, vendida antes da alta. Os alertas recentes sobre inteligência artificial ainda não têm desfecho.

Tratar um gestor como oráculo por causa de um acerto famoso é o erro que a análise de investimentos existe para evitar. O que vale copiar em Burry é o processo, e não as apostas.

O que o caso Burry ensina a quem quer ser analista de investimentos?

Ensina três lições de ofício:

  • Ler o documento original. A vantagem de Burry veio de examinar como as hipotecas estavam sendo concedidas, e não de seguir o consenso do mercado.
  • Calcular o custo de esperar. Uma posição que consome caixa todos os meses precisa de prazo e de capital para chegar ao fim.
  • Preparar o cliente. A revolta dos investidores da Scion mostra que comunicar a tese e o risco é parte do trabalho.

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