O Poder do CIO: Bug do milênio – Os US$ 300 bilhões gastos para a virada de 2000
BlogO bug do milênio levou empresas e governos a gastar mais de US$ 300 bilhões antes de 2000. Veja o que deu errado e se o gasto valeu a pena.
O “bug do milênio”, conhecido pela sigla Y2K, foi o defeito em sistemas de computador que registravam o ano com apenas dois dígitos, o que faria o ano 2000 ser lido como 1900. Para evitar falhas na virada, empresas e governos gastaram mais de 300 bilhões de dólares no mundo. Em 1º de janeiro de 2000, os problemas foram, em geral, menores. Até hoje se discute se o resultado provou o sucesso do trabalho ou o exagero do gasto.
O episódio mobilizou mais de 120 países e é o melhor exemplo de um dilema que acompanha o cargo de CIO: como justificar o investimento em um problema que, se for bem resolvido, ninguém vai ver.
Por que os sistemas usavam dois dígitos para o ano?
Para economizar memória, que era muito cara. Em 1975, cada kilobyte de memória custava de 10 a mais de 100 dólares. Nos anos 1960, a memória de núcleo custava um dólar por bit. O IBM 1401, um dos computadores empresariais mais comuns da época, podia ser entregue com apenas 2 KB.
Nesse contexto, gravar “85” em vez de “1985” economizava dois caracteres em cada data de cada registro. Em um banco com milhões de contas, a economia era real. O problema é que parte desses sistemas continuou em uso até a virada do século.
Quando o problema foi percebido?
Décadas antes da virada. A cronologia:
- 1958: Bob Bemer identificou o problema ao trabalhar em um software de genealogia e passou os 20 anos seguintes tentando chamar atenção para ele.
- 1987: a Bolsa de Nova York já havia gasto mais de 20 milhões de dólares no assunto, com a contratação de 100 programadores.
- 1993: Peter de Jager publicou o artigo “Doomsday 2000” na revista Computerworld.
- 12 de junho de 1995: um e-mail de David Eddy é apontado como a origem da sigla Y2K.
- Dezembro de 1998: o primeiro encontro mundial de coordenadores nacionais do Y2K, na ONU, reuniu mais de 120 países.
A Bolsa de Nova York já investia no problema 13 anos antes da data. Entre o primeiro alerta de Bemer e a virada passaram 42 anos.
Quanto custou a preparação?
O custo total provavelmente passou de 300 bilhões de dólares. A consultoria IDC estimou o gasto mundial em 308 bilhões de dólares. Nos Estados Unidos, foram 134 bilhões em preparação e mais 13 bilhões para corrigir problemas em 2000 e 2001.
A mesma IDC estimou que os Estados Unidos “podem ter desperdiçado” 40 bilhões de dólares, cerca de 30% do gasto americano de preparação.
O que deu errado na virada?
Pouca coisa grave, e muita coisa pequena. Exemplos registrados:
- No Japão, o equipamento de monitoramento de radiação da usina nuclear de Shika falhou segundos depois da meia-noite. As autoridades afirmaram não haver risco ao público.
- Na Grécia, cerca de 30 mil caixas registradoras, aproximadamente 10% do total, imprimiram datas de 1900.
- Na Alemanha, um banco transferiu 12 milhões de marcos e datou o extrato de 30 de dezembro de 1899.
- Nos Estados Unidos, uma correção fez computadores em Fort Belvoir, na Virgínia, deixarem de processar dados de cinco satélites espiões por mais de dois dias, a partir de 31 de dezembro de 1999.
O caso mais grave foi médico. Em Sheffield, na Inglaterra, uma falha só corrigida em 24 de maio fez 154 pacientes receberem avaliações erradas de risco de síndrome de Down.
O Brasil teve problemas?
Teve um registrado. No Porto de Santos, cerca de 20 mil registros alfandegários anteriores a junho de 1999 ficaram ilegíveis depois da virada. O porto informou que, identificado o problema em 10 de janeiro, a correção levou “questão de minutos”.
O dinheiro foi bem gasto?
Há dois argumentos, e os dois se apoiam em fatos.
O primeiro diz que o trabalho funcionou. A maior parte dos defeitos foi corrigida antes da data, e a ausência de grandes falhas mostra a abrangência do projeto. O presidente americano Bill Clinton chamou o Y2K de “o primeiro desafio do século 21 vencido com sucesso”.
O segundo diz que houve exagero. Coreia do Sul, Itália e Rússia investiram pouco ou nada e tiveram problemas desprezíveis. Apenas cerca de 25% dos problemas esperados antes de 2000 apareceram. Em 3 de janeiro de 2000, a agência americana de apoio a pequenas empresas recebeu cerca de 40 ligações, nenhuma crítica.
Por que a pergunta não tem resposta fácil?
Porque prevenção bem-feita é invisível. Se nada acontece, não há como saber se foi por causa do trabalho ou se nada aconteceria de qualquer forma. É o dilema permanente de quem administra risco: o sucesso parece desperdício.
O que o Y2K deixou?
Três heranças que todo CIO usa:
- Inventário de sistemas. Para corrigir o problema, as empresas precisaram listar tudo o que rodava, muitas pela primeira vez.
- Coordenação entre empresas. Uma iniciativa do governo holandês criou os centros de compartilhamento e análise de informações (ISACs), hoje usados para troca de alertas de segurança.
- Dívida técnica como risco. O atalho de economizar dois dígitos em 1960 cobrou a conta 40 anos depois.
O problema também não terminou. Sistemas Unix que guardam o tempo em números inteiros de 32 bits com sinal vão estourar em 19 de janeiro de 2038.
O que o bug do milênio ensina a quem quer ser CIO?
Ensina que decisões técnicas baratas hoje podem ser caras amanhã, e que o CIO responde pelas duas pontas. O atalho de 1960 foi racional. Mantê-lo até 1999 não foi.
Ensina também a defender orçamento de prevenção. O CIO que evita um desastre raramente recebe crédito, porque o desastre não acontece. Medir o risco, documentar o que foi corrigido e mostrar o custo provável da inação é parte do trabalho. Formação, trajetória e remuneração da função estão na página de CIO (Diretor de Tecnologia da Informação) do Guia de Carreiras.