O Poder do COO: Tim Cook – Como o estoque da Apple caiu 94% em menos de um ano
BlogTim Cook entrou na Apple em 1998 e reduziu o estoque de US$ 437 milhões para US$ 25 milhões em menos de um ano. Veja como a operação mudou.
Tim Cook entrou na Apple em março de 1998 como vice-presidente sênior de operações mundiais e, em menos de um ano, reduziu o estoque da empresa de 437 milhões de dólares, cerca de um mês de vendas, para 25 milhões. Ele fechou fábricas e depósitos, transferiu a produção para fabricantes terceirizados e passou a planejar a produção semanalmente. Foi diretor de operações (COO) de 2005 a 2011 e sucedeu Steve Jobs como presidente-executivo em 24 de agosto de 2011.
O caso é a referência mais citada da carreira de COO: mostra como a gestão de operações, longe dos holofotes, pode salvar o caixa de uma empresa em crise.
Quem é Tim Cook?
Timothy Cook nasceu em 1º de novembro de 1960, em Mobile, no Alabama. Formou-se em engenharia industrial pela Universidade Auburn em 1982 e fez MBA na Universidade Duke em 1988.
A carreira foi construída em operações e cadeia de suprimentos:
- IBM: 12 anos na área de computadores pessoais, até o cargo de diretor de atendimento de pedidos na América do Norte.
- Intelligent Electronics: diretor de operações da divisão de revenda de computadores.
- Compaq, 1997: vice-presidente de materiais corporativos. Saiu cerca de seis meses depois, para a Apple.
Não era engenheiro de produto nem designer. Era especialista em fazer os componentes certos chegarem à fábrica certa, na hora certa.
Qual era o problema da Apple em 1998?
Estoque parado. No ano fiscal de 1997, a empresa tinha 437 milhões de dólares em estoque, cerca de um mês de vendas. Segundo Cook, a Apple tinha cinco semanas de estoque nas fábricas e girava o estoque dez vezes por ano.
Estoque é dinheiro imobilizado. Em uma indústria de computadores, ele tem um agravante: componentes tendem a perder valor à medida que modelos novos e mais baratos chegam ao mercado.
A referência do setor era a Dell, que girava o estoque 52 vezes por ano, cerca de uma vez por semana. Cook declarou o objetivo sem rodeios: “Miramos em vencer a Dell”.
O que Cook fez?
Quatro mudanças, segundo a revista IndustryWeek, que analisou a virada em março de 1999:
- Terceirização da fabricação. A maior parte da produção e da montagem passou a fabricantes contratados. Em fevereiro de 1999, a Apple anunciou que deixaria de fazer o iMac em sua fábrica de Elk Grove, na Califórnia, e passaria a produção para a LG Electronics.
- Logística terceirizada. Transporte, planejamento de transporte e armazenagem também foram para parceiros.
- Rotas mais curtas. Um produto que ia da Ásia para a Irlanda e voltava à Ásia passou a ser montado inteiro na Ásia, com um parceiro de Taiwan.
- Planejamento semanal. A empresa passou a projetar vendas toda semana e ajustar a produção todos os dias, com sistemas de gestão da SAP e de planejamento da i2 Technologies.
Duas frases de Cook resumem a lógica: “Considero qualquer estoque interno um defeito” e “Não quero ter um avião ou um caminhão”.
Qual foi o resultado?
O estoque caiu em poucos meses:
- Ano fiscal de 1997: 437 milhões de dólares, cerca de um mês de vendas.
- 25 de setembro de 1998, fim do ano fiscal: 78 milhões, ou seis dias de vendas. Redução de 80%.
- Trimestre encerrado em dezembro de 1998: 25 milhões. Redução total de 94%.
Em dezembro de 1998, a Apple tinha dois dias de estoque nas fábricas, contra sete dias da Dell. Cook disse: “Passamos de 10 giros para 180 giros”.
O que significa girar o estoque 180 vezes por ano?
Que cada item fica, em média, cerca de dois dias na empresa antes de ser vendido. Com 10 giros por ano, ficava mais de um mês.
A diferença em dinheiro é direta. A redução de 437 para 78 milhões de dólares liberou 359 milhões em caixa que estavam parados em componentes e produtos acabados. Para uma empresa em crise, é dinheiro que deixa de precisar ser emprestado.
Como Cook chegou ao topo?
Pela operação. Em janeiro de 2007, foi promovido a líder de operações. Em 2009, comandou a empresa durante a licença médica de Jobs. Em janeiro de 2011, com a terceira licença de Jobs, assumiu a maior parte das operações do dia a dia. Em 24 de agosto de 2011, tornou-se presidente-executivo. Jobs morreu em 5 de outubro do mesmo ano.
Entre 2011 e 2020, a receita e o lucro da Apple dobraram, e o valor de mercado passou de 348 bilhões para 1,9 trilhão de dólares. Em 2025, a receita foi de 416 bilhões de dólares. Em abril de 2026, a Apple anunciou que Cook deixaria a presidência-executiva em 1º de setembro de 2026, passando a presidente executivo do conselho, com John Ternus como sucessor.
Por que o COO é o cargo que mais se aproxima da presidência?
Porque é quem conhece a empresa por dentro. O diretor de operações sabe quanto custa fazer cada produto, onde estão os gargalos e quais fornecedores sustentam a cadeia. Para suceder um fundador visionário como Jobs, a Apple escolheu o executivo que garantia que as ideias chegassem às lojas.
O caso também mostra o limite do cargo. Operação eficiente não cria produtos. O iMac, lançado em 1998, foi decisão de produto e design. Cook garantiu que ele pudesse ser fabricado, distribuído e vendido sem afogar a empresa em estoque.
O que o caso Tim Cook ensina a quem quer ser COO?
Ensina que caixa se gera também na operação. A Apple liberou 359 milhões de dólares sem vender um computador a mais, apenas reduzindo o que mantinha parado.
Ensina também a separar o que é central do que é acessório. Cook decidiu que a Apple não precisava ter fábricas, aviões ou caminhões, e sim controlar o planejamento e os parceiros. O diretor de operações é quem define o que a empresa faz por conta própria e o que contrata de quem faz melhor. Formação, trajetória e remuneração da função estão na página de COO (Diretor de Operações) do Guia de Carreiras.