Saúde baseada em valor: o que é e como funciona no Brasil ...
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Saúde baseada em valor: o que é e como funciona no Brasil

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30 de outubro de 2026

Saúde baseada em valor: definição de Porter, PROMs e PREMs, pagamento por serviço versus por pacote e os pilotos da ANS.

Saúde baseada em valor é o modelo em que o sistema de saúde passa a ser avaliado, e pago, pelos resultados que entrega ao paciente em relação ao que gasta; a definição vem de Michael Porter, que em 2010 propôs, no New England Journal of Medicine, medir valor como os resultados de saúde alcançados por dólar gasto, condição por condição, ao longo de todo o ciclo de cuidado. No Brasil, a ANS selecionou em 2023, pelo segundo edital do seu Programa de Modelos de Remuneração Baseados em Valor, 20 projetos-piloto de operadoras, de 49 inscritos.

A tese deste artigo: saúde baseada em valor é, na prática, um problema de medição. Quem sabe medir o que acontece com o paciente depois do atendimento e quanto custou o ciclo inteiro tem a competência que o setor mais precisa, e esse é o perfil que o MBA FGV com ênfase em Serviços de Saúde busca formar.

O que é saúde baseada em valor?

É uma forma de organizar e remunerar o cuidado em torno do resultado para o paciente, e não do volume de procedimentos. Porter (NEJM, 23 de dezembro de 2010; 363(26):2477-2481) define valor como resultados de saúde por dólar gasto e faz duas exigências que o diferenciam de "gastar menos": os resultados são específicos de cada condição de saúde e o custo que importa é o do ciclo completo de cuidado da condição, e não o de serviços isolados.

Na prática, três perguntas organizam o tema:

  1. Qual resultado importa para esta condição (sobreviver, voltar a andar, não ser reinternado)?
  2. Quanto custou todo o ciclo de cuidado até esse resultado, e não só a internação?
  3. Quem paga o quê, e o pagamento premia ou pune o resultado?

Como se mede valor em saúde?

Mede-se com duas famílias de indicadores e com um custo. Os PROMs (patient-reported outcome measures) registram o resultado relatado pelo próprio paciente, como dor, capacidade de caminhar ou qualidade de vida; os PREMs (patient-reported experience measures) registram a experiência do paciente com o cuidado, como espera, clareza das informações e acolhimento. O ICHOM (International Consortium for Health Outcomes Measurement) é uma organização sem fins lucrativos que publica conjuntos padronizados de medidas de resultado por condição, justamente para que hospitais diferentes possam se comparar.

O custo entra pelo ciclo completo: consulta, exame, cirurgia, reabilitação e complicações. É por isso que o assunto interessa tanto a gestores quanto a analistas de dados: sem dado que acompanhe o paciente de ponta a ponta, não há valor para calcular.

Como a forma de pagamento muda o comportamento?

Muda porque no pagamento por serviço (fee for service) o prestador recebe mais quando faz mais, inclusive quando faz mais por causa de uma complicação, e num pagamento por pacote fica com mais margem quando o paciente evolui bem. O material sobre os 20 pilotos da ANS, apresentado na convenção da Federação Brasileira de Hospitais em 2025, lista justamente essas combinações: fee for service com pagamento por desempenho, pacote por condição clínica ou por episódio e capitação.

Para ver o efeito, vale uma simulação. Hipótese ilustrativa, não é dado de hospital, operadora ou tabela real: um hospital faz 100 cirurgias de um mesmo tipo. No pagamento por serviço, a operadora paga R$ 40.000 por cirurgia e R$ 20.000 por complicação tratada. No pagamento por pacote, paga R$ 42.000 por cirurgia, já incluindo as complicações. O custo do hospital é de R$ 36.000 por cirurgia mais R$ 18.000 por complicação. A tabela compara o resultado do hospital em três taxas de complicação.

Complicações em 100 cirurgias Custo do hospital Pagamento por serviço: receita Pagamento por serviço: margem Pacote: receita Pacote: margem
5 (5%) R$ 3.690.000 R$ 4.100.000 R$ 410.000 R$ 4.200.000 R$ 510.000
10 (10%) R$ 3.780.000 R$ 4.200.000 R$ 420.000 R$ 4.200.000 R$ 420.000
20 (20%) R$ 3.960.000 R$ 4.400.000 R$ 440.000 R$ 4.200.000 R$ 240.000

Os números mostram o incentivo: no pagamento por serviço, a margem do hospital sobe de R$ 410.000 para R$ 440.000 quando as complicações passam de 5 para 20; no pacote, a margem cai de R$ 510.000 para R$ 240.000. Com 10 complicações em 100 cirurgias, os dois modelos empatam em R$ 420.000. Para a operadora, o pagamento por serviço custa de R$ 4,1 milhões a R$ 4,4 milhões conforme as complicações, enquanto o pacote custa R$ 4,2 milhões em qualquer cenário. O pacote só funciona se alguém mede a taxa de complicação com credibilidade, e é aí que a tese do artigo se confirma.

O que a ANS já fez no Brasil?

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) conduz duas frentes que se encaixam na lógica de valor: o Projeto Parto Adequado e o Programa de Modelos de Remuneração Baseados em Valor.

O Parto Adequado é uma cooperação técnica entre a ANS, o Hospital Israelita Albert Einstein e o Institute for Healthcare Improvement (IHI), com apoio do Ministério da Saúde. Segundo o edital da ANS, a Fase 1 (2015 e 2016) teve 35 hospitais e 18 operadoras, e o percentual de partos vaginais passou de cerca de 21,5% para aproximadamente 38% na população-piloto, uma alta de cerca de 16,5 pontos percentuais. A Fase 2, lançada em 2017, envolveu 108 hospitais e 62 operadoras, e a ANS estima que, somando as duas fases, mais de 20 mil cesarianas desnecessárias foram evitadas. O projeto não é um modelo de pagamento; é um exemplo de como medir um resultado (tipo de parto, internação em UTI neonatal) e agir sobre ele.

O Programa de Modelos de Remuneração Baseados em Valor entra na parte do pagamento. O segundo edital recebeu inscrições de 16 de novembro de 2022 a 28 de fevereiro de 2023: foram 49 projetos de 36 operadoras (42 médico-hospitalares e 7 de saúde bucal), dos quais a ANS selecionou 20 (16 médico-hospitalares e 4 de saúde bucal), ou seja, 20 de 49, cerca de 41%. As áreas de atenção dos 20 projetos selecionados são estas:

Área de atenção ou linha de cuidado Projetos selecionados
Atenção primária à saúde 4
Saúde bucal 4
Saúde materna e neonatal 3
Câncer 3
Internações hospitalares 2
Diabetes mellitus tipo 1 1
Ortopedia 1
Saúde do idoso 1
Transtorno do espectro autista 1
Total 20

Os projetos são pilotos monitorados pela ANS, com apoio técnico, visitas e seminários; não equivalem a uma regra obrigatória para todo o setor.

Qual é o tamanho do mercado em que isso se aplica?

Aplica-se a um setor de dezenas de milhões de pessoas: a ANS registrava 52.957.510 vínculos de beneficiários em abril de 2026, segundo dados da própria agência compilados pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), com 40,35% em medicina de grupo e 35,01% em cooperativas médicas, o que soma 75,36% (40,35 mais 35,01) dos vínculos nessas duas modalidades. Quanto maior a base, maior o efeito de qualquer mudança na forma de pagar.

O que uma rede integrada de atendimento mostra?

Mostra que integrar consultas, exames e cirurgias numa mesma rede cria o ambiente em que medir o ciclo completo faz sentido. Um Trabalho de Conclusão de Curso de Publicidade e Propaganda da Strong sobre a rede Dr. Consulta, publicado na Revista Estudos e Negócios, publicação da Strong Business School (nº 35, jul–dez/2023, pp. 45–46), relata que a empresa surgiu num momento em que mais de 150 milhões de brasileiros não tinham plano de saúde, que em 2017 oferecia mais de 50 tipos de consultas especializadas em cerca de 40 endereços do estado de São Paulo e que em 2018 e 2019 passou a atuar em mais de 60 especialidades, com mais de 3 mil tipos de serviços e parcerias com mais de 20 hospitais para procedimentos cirúrgicos.

Os 150 milhões do trabalho e os 52,96 milhões de vínculos da ANS em 2026 são de épocas diferentes e não se comparam diretamente; o que o trabalho mostra é a dimensão da população sem plano que a rede buscava atender. O trabalho é de comunicação e não mede resultados clínicos; serve aqui como retrato de uma rede que reúne vários serviços numa só marca, e não como prova de saúde baseada em valor.

Que profissionais medem valor em saúde?

Medem valor profissionais de gestão, de dados e de finanças. No Guia de Carreiras da Strong, duas carreiras ajudam a transformar atendimento em indicador:

  1. a de analista de dados, que organiza e interpreta as bases que acompanham o paciente;
  2. a de especialista em Data e Business Intelligence, que monta os painéis de indicadores usados pela gestão.

Como estudar saúde baseada em valor?

Estuda-se com formação em gestão de serviços de saúde. O MBA FGV com ênfase em Serviços de Saúde tem 18 disciplinas (9 em cada metade do curso), dura 18 meses, é noturno, em formato blended (metade das aulas ao vivo por webconferência, metade presencial), e começa em março de 2027, em Alphaville, Osasco, Santo André e Santos. Para quem prefere começar pela base de gestão, a graduação em Administração é presencial, de 4 anos, com início em fevereiro de 2027.

Fontes e metodologia

A definição de valor vem do artigo de Michael E. Porter, What Is Value in Health Care?, publicado no New England Journal of Medicine (2010; 363(26):2477-2481). Os dados do Programa de Modelos de Remuneração Baseados em Valor e do segundo edital vêm das páginas da ANS (gov.br/ans), e a distribuição por área de atenção e os arranjos de pagamento vêm de material da ANS apresentado na convenção da Federação Brasileira de Hospitais (2025), e os do Parto Adequado, do edital do ciclo intensivo da Fase 2, também da ANS, consultados em 17/10/2026. Os vínculos de beneficiários vêm de dados da ANS compilados pelo IESS (abril de 2026). O dado do Dr. Consulta vem da edição da revista citada no corpo do texto. As definições de PROM, PREM e ICHOM seguem o uso corrente na literatura da área. A simulação de pagamento por serviço e por pacote é hipotética e foi calculada para este artigo, assim como as diferenças e percentuais (16,5 pontos, 41%, 75,36%).

Perguntas frequentes sobre saúde baseada em valor

O que é saúde baseada em valor?

É o modelo em que o cuidado é avaliado e pago pelos resultados para o paciente em relação ao custo do ciclo completo, conforme definição de Porter (NEJM, 2010).

O que são PROMs e PREMs?

PROMs medem o resultado de saúde relatado pelo paciente; PREMs medem a experiência do paciente com o cuidado.

Qual a diferença entre pagamento por serviço e por pacote?

No pagamento por serviço, o prestador recebe por cada item realizado; no pacote, recebe um valor por condição ou episódio, incluindo complicações. Na simulação do artigo, o pacote só é mais vantajoso para o hospital quando as complicações ficam abaixo de 10 em cada 100 cirurgias.

O que a ANS fez sobre remuneração baseada em valor?

O segundo edital do programa, de 2022 e 2023, recebeu 49 projetos de 36 operadoras e selecionou 20 pilotos, entre eles 4 de atenção primária e 3 de saúde materna e neonatal.

Qual carreira trabalha com indicadores de saúde?

Carreiras de dados, como analista de dados e especialista em Data e BI, no Guia de Carreiras da Strong.

Que curso da Strong aborda gestão de serviços de saúde?

O MBA FGV com ênfase em Serviços de Saúde, de 18 meses, noturno e blended, com início em março de 2027.


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